Lesão renal aguda em pacientes críticos

A Lesão renal aguda (LRA) é definida, conforme Kidney Disease Improving Global Outcomes (KDIGO) de 2012, como:

  • Aumento em 0,3 mg/dL da creatinina sérica basal, conhecida ou presumida, dentro de 48h
  • Aumento de 1,5 vezes na creatinina sérica basal nos últimos 7 dias
  • Redução do débito urinário para menos que 0,5ml/kg/h durante 6h ou mais

Estágio de Lesão Renal Aguda

Aumento da creatinina séricaDeclínio na quantidade do débito urinário
1≥ 0,3 mg/dL (26,52 micromol/L) ou 1,5–1,9 vezes a linha de base< 0,5 mL/kg/h por 6–12 horas
22 a 2,9 vezes a linha de base< 0,5 mL/kg/hora por ≥ 12 horas
3≥ 4,0 mg/dL (353,60 micromol/L) ou ≥ 3 vezes a linha de base< 0,3 mL/kg/h por ≥ 24 horas ou anúria por ≥ 12 h

É uma síndrome clínica comum a várias causas, divididas classicamente em pré-renal, renal intrínseca e pós-renal; é associada à morbidade, mortalidade e alto custo de cuidados. Um estudo multinacional recente com mais de 1.800 pacientes de 97 unidades de terapia intensiva (UTI) informou que a LRA de qualquer estágio se desenvolveu dentro de uma semana de internação em 57% dos pacientes. Grave (estágio 2 ou 3) ocorreu em 39%, e 13,5% necessitaram de terapia de renal substitutiva (TRS).

LRA na UTI, nos pacientes críticos, é um fator de risco independente para a morte. As taxas de mortalidade por LRA que necessitam de TRS variam de 40 a 55%, superiores às taxas de mortalidade relatadas para infarto do miocárdio na UTI (20%), sepse sem LRA (15-25%) e síndrome de angústia respiratória aguda (SARA) que requerem ventilação mecânica (30-40%).

A alta mortalidade atribuível a LRA decorre de efeitos sistêmicos em órgãos distantes, incluindo pulmão, coração, fígado, cérebro e sistema imunológico.

Etiologias comuns de LRA nos pacientes críticos, em UTI, são associadas a sepse, cirurgia cardíaca, choques, uso de drogas nefrotóxicas, parâmetros ventilatórios elevados, alteração volêmica, insuficiência hepática aguda, síndrome compartimental abdominal, malignidade, uso de contraste, rabdomiólise, entre outros.

A identificação precoce da LRA a partir da função renal basal, pronta ressuscitação da circulação com fluidos e sua manutenção ou suspensão conforme estado de volêmico, vasopressores e inotrópicos, pressão arterial média maior que 65-70mmHG, assim como revisão dos medicamentos nefrotóxicos e seu ajuste para função renal, o uso de diurético nos cenários de hipervolemia, a profilaxia para nefropatia do contraste com adequada infusão volêmica, controle da hiperglicemia continuam sendo parte importante na prevenção da LRA.

A TRS tem como objetivo correção das consequências da disfunção renal: anormalidade metabólicas, regulação do equilíbrio hidro eletrolítico, controle volêmico, prevenção e auxílio na recuperação da função de outros órgãos (renal, cardíaco, pulmonar, sistema nervoso central, sistema digestivo).

O papel do nefrologista no contexto do paciente crítico é muito importante e, o sucesso do tratamento dependerá da interação produtiva entre as diversas áreas cuidadoras, como intensivistas entre outras especialidades e com a equipe multidisciplinar, enfermagem, fisioterapeutas, nutricionistas e farmacêuticos.


Cuide da sua saúde!!

Dra Ana Paula Giraldes – CRM 150569.
Nefrologista – RQE 75898


Fonte: Joannidis M, Druml W, Forni LG, et al. Prevention of acute kidney injury and protection of renal function in the intensive care unit: update 2017 : Expert opinion of the Working Group on Prevention, AKI section, European Society of Intensive Care Medicine. Intensive Care Med. 2017;43(6):730-749. doi:10.1007/s00134-017-4832-y

Griffin BR, Liu KD, Teixeira JP. Critical Care Nephrology: Core Curriculum 2020. Am J Kidney Dis. 2020 Mar;75(3):435-452. doi: 10.1053/j.ajkd.2019.10.010. Epub 2020 Jan 22. PMID: 31982214; PMCID: PMC7333544.

Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Acute Kidney Injury Work Group. KDIGO Clinical Practice Guideline for Acute Kidney Injury. Kidney inter., Suppl. 2012; 2: 1–138.